Trópico de Sagitário?

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Com o movimento fraco, dois livros pra terminar de ler, e dois roteiros pra desenvolver, eu deveria estar em casa. Mas, se estivesse, ia perder a da noite. A da madrugada. Um casal salvou o trampo de hoje. Ele, entusiasmado com a livraria — é a primeira vez deles aqui —, me perguntou se tenho algum livro bom pra vender. Dei umas dicas e ele separou o Código de um cavaleiro do Ethan Hawke. Ela queria O Lobisomem. “Este eu não tenho”. “Ah, que pena”. “Escolha um, amor”, ele disse. E ela, deslumbrada ao ver os livros Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio do Henry Miller: “É isso, amor! É isso! É isso! Isso é que é livro!”. E veio pro meu lado: “Moço, tem Trópico de Sagitário?”. Engoli a saliva. Respirei. Tentei disfarçar um sorriso. Ela, pra ele: “Isso aqui, amor, é de uma série sobre signos…. Ai, achei! Achei! Era tudo que eu queria!”. Eu disse, constrangido: “É que esses livros são autobiográficos do Henry. São os dias dele em Paris”. E ela: “Mas tem o de Sagitário, de Touro, Áries, Leão… “. “Veja bem, moça… É que esses livros não são sobre signos. É o Henry narrando os dias dele na França”. Pro amor dela: “Ah, mor, eu confundi. Depois você me dá O Lobisomem”. Ele pagou o Código de um cavaleiro e saiu com uma certeza: “Eu vou gostar desse livro. Parece com D. Quixote”. “É por aí”, eu disse.

Noite…

T.B.

 

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Dá vontade de jogar de cima da ponte (qualquer ponte)

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A menina não tá passando bem. Ela tá no bar. É madrugada, e é normal que alguém passe mal no bar. É como quebrar um copo. No bar. É normal. E é normal, também, que apareçam os que se acham médicos. É o que mais tem no bar nessas horas. E é insuportável. E chegam, na maioria das vezes, pra atrapalhar. Pra estressar. Na última madrugada não foi diferente. A menina sentou no tapete da livraria. Tava consciente. E queria ficar sozinha. Não demorou muito, chegou a primeira médica. Dei um toque dizendo que deixasse comigo. Em seguida, um médico sentou no tapete e foi logo pegando na mão dela e puxando conversa: “O que você tá sentindo? Comeu? Quer um engov?”. Dei um chega pra lá. Ele levantou. Em pé, ficou me olhando com cara feia. De raiva. Mesmo. Não dei a mínima pra eles; que foram embora. E a menina me agradeceu assim que se sentiu melhor: “Buenas, obrigada por espantar aquele mala.”

T.B.

A Buenas Bookstore, a única livraria que funciona na madrugada paulistana, fica na rua Frei Caneca, 384.

Até o sol raiar

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Eu ia escrever sobre Acre da Lucrécia Zappi, um dos melhores livros do ano, quando me deparei com esta foto que nem lembrava mais. Eu tirei na manhã deste domingo no boteco que fica aqui na frente do teatro. Já passava das sete da matina quando eu fechei a livraria. Daí fui beber a saideira com o Linguinha. Já passava das nove quando tive a ideia de clicar. E me lembrei das viagens pelo sertão baiano com meu amigo Tinho Safira que, infelizmente, partiu há dois anos. A gente costumava beber até o sol raiar. E nesta manhã foi inevitável não lembrar. No som do boteco tocava alguma música sertaneja, o que não me incomoda. Já não me importo mais com o som ambiente desagradável dos botecos que costumo beber. Agora vi esta foto. E postei, ainda sonolento, tentando comer alguma coisa (não consigo comer nada); só na água, café e guaraná, como nos velhos tempos em que eu via o sol raiar e levantar da cama no final do dia era de costume. Hoje, quando acordei, já era noite, e ainda estou zonzo. E a noite segue…

T.B.

À procura de João Gilberto

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Marc Fischer, escritor alemão, em uma viagem a Tóquio após levar um pé na bunda da namorada ouve, pela primeira vez na casa de um amigo, a canção Ho ba la lá, quarta faixa do primeiro álbum de João Gilberto, Chega de Saudade (1959). Ele pira. Até então, Marc só conhecia Garota de Ipanema, a versão que está no álbum Getz/Gilberto (1964), com Astrud Gilberto acompanhando João no vocal. Marc resolve pesquisar a obra de João, depois do impacto, vindo pro Brasil passar cinco meses em busca do paradeiro do pai da bossa nova. Uma vez aqui, entrevista uma turma que convive ou que conviveu com o “Vampiro”. De Garrincha, o garçom que levava o almoço e a janta todos os dias durante quatro anos no apartamento onde João morou no Leblon, acho que foi no Leblon; passando por Roberto Menescal, João Donato, Otávio Terceiro, o empresário e amigo durante décadas, entre tantos outros. Raquel Balassiano, a Watson, é o seu braço direito. Eu comecei a ler este livro no mês passado — só não terminei ainda porque estou lendo Acre, Pulphead, e terminando O perseguidor, conto do Cortázar em que ele homenageia Charlie Parker. Dias depois, de eu ter começado a leitura do Ho ba la lá, a Rachel esteve aqui no teatro. Ela entrou e já veio direto no exemplar que está aqui do meu lado (o último), e perguntou se o livro ainda está em catálogo. Respondi que está no final. Restam poucos exemplares nas grandes livrarias. Na distribuidora que eu trabalho, não tem mais. Conversamos muito nesta noite. Tiramos fotos. Postei no facebook. Então ela me falou do Marc que se matou meses antes da publicação do livro, e que foi filmado, recentemente, no Rio, um documentário sobre o livro que está sendo editado em Paris com previsão de lançamento para o próximo ano no festival de Cannes. Fico por aqui com a certeza de ter comigo um puta livro nos moldes Gay Talese, mestre do jornalismo literário, ao qual sou fá. Também.

Até a próxima,

Tarcísio Buenas.

P.S: o livro custa 43 reais [A Buenas Bookstore, a única livraria que funciona na madrugada paulista, fica na Frei Caneca, 384]

DJ do bar

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Quem conhece a livraria, a Buenas, que funciona no teatro Cemitério de Automóveis (Frei Caneca, 384 – SP) sabe que costumo ficar sentado numa poltrona diante de um MacBook — presente do meu amigo Nosferatu (um cara que te dá um MacBook de presente, só pode ser amigo). Também leio e bebo, sempre, cerveja; o copo tá sempre do meu lado. Engraçado, e foi uma coisa que nunca tinha reparado, é que tem cliente que pensa que sou eu quem coloca o som que a turma ouve no bar. Eu costumo usar o headphone pra poder assistir o Netflix, ou pra acessar o Youtube, entre outros sites. Um cliente só se tocou, dia desses, porque viu o Carcarah discotecando, então ele veio me falar sobre. Um outro me pediu, no sábado, pra “tocar” The Clash. Eu ri. E aproveito pra dizer que eu me divirto muito no meu trabalho. A maioria dessas mini crônicas que escrevo e posto no Facebook, escrevo rindo. Racho o bico. Quem sabe eu não lance um livro (pocket) com essas crônicas? Quem sabe? Minha preocupação no momento é relançar o 18 de maio, meu primeiro livro que foi publicado em 2015. Acho que vai rolar. Acredito que role.

Tarcísio Buenas