Acre

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Escolhi Acre, da Lucrecia Zappi, como um dos cinco melhores livros lançados em 2017. Falei pra Lucrecia — que me presenteou com um exemplar no dia do lançamento —, por mensagem no Facebook, que Acre ainda vai pras telas dos cinemas. Ela não levou fé e me questionou. Acre é tenso do começo ao fim. Tem clima de suspense logo no primeiro capítulo quando parece ter acontecido algo que o leitor ainda não sabe o quê. Até então, não sabemos. De algo feito escondido. Como na adolescência em que a gente beija atrás do muro ou no banheiro ou em qualquer lugar com medo de que alguém veja. Alguém descubra. É assim: num apartamento localizado na Vila Buarque, centro de SP, vive um casal (Oscar e Marcela). Ao lado do apartamento deste casal, uma senhora, sozinha. É solitária e não é por opção. É o que chamo de destino. Destino este que trouxe seu filho, Nelson, do Acre, pra morar com ela. A tensão começa quando Nelson se encontra com Marcela, que foi namorada dele na adolescência em Santos. O marido dela, Oscar, é desafeto do Nelson. Está tudo sendo contado nas próximas páginas com detalhes entre passado e presente a vida desses personagens. De como quando viveram em Santos ao presente na Vila com a chegada do novo morador. Uma coisa que me chamou atenção desde o primeiro capítulo é o olhar da Lucrecia ao narrar a história na voz masculina. O narrador é o Oscar. O olhar masculino. A insegurança masculina. O ciúme, universal. O mistério. O sufoco. Tudo sendo contado de uma forma que te convence sem pesar. Sem levantar bandeira. Lucrecia é uma grande escritora. Das melhores da atual literatura brasileira. Ou melhor: mundial. Nascida na Argentina, viveu no Brasil e no México. Atualmente, vive em Nova York. De retorno a SP pra participar de eventos literários, a gente conversou sobre os detalhes da capa, que é a faixada do prédio em que ela morou na Vila. Do bairro. Dos personagens. Eu poderia ter questionado mais e saber o que levou ela a escrever o livro e as verdades que estão por trás da trama. Essas coisas. Mas preferi não. Prefiro pensar em tudo que foi lido do meu jeito. Da forma como eu enxerguei nas páginas deste que já é um dos meus preferidos. E vai pras telas dos cinemas.

Ao som da Nina Simone cantando “Tomorrow is my turn”, preparo meu café. Entre um gole e outro, penso na atual literatura. Nos escritores e escritoras da minha geração. Penso no que tenho visto nas redes sociais (Facebook, principalmente): pouca coisa interessante. Resta pouca gente fazendo a diferença. Lucrecia é uma delas. Lucrecia tem conteúdo. Lucrecia é uma grande escritora.

Tarcísio Buenas

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Melhores do ano (Segunda parte)

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MEUS DISCOS DO ANO, ENTRE OUTRAS COISAS

Discos (Nacionais e internacionais)

10) Kurt Vile/Courtney Burnett – Lotta sea lice

09) Marcelo Montengro/Fábio Brum – Tranqueiras líricas

08) Mogway – Every country’s sun

07) The Cigarettes – Saturno wins

06) Thurston Moore – Rock and roll consciousness

05) The Dream Syndicate – How did i find myself here?

04) Grandaddy – Last place

03) Mark Lanegan – Gargoyle

02) Howe Gelb witb Lonna Kelley – Further standards

01) The Jesus and Mary Chain – Damage and joy

MÚSICA

03) The Cigarettes – The light

02) The Jesus and Mary Chain – Always sad

01) Mogway – Party in the dark

CLIP

Cinnamon tapes – Sol

Courtney Burnett & Kurt Vile – Over everything

BANDAS

The Cigarettes

The Jesus and Mary Chain

SHOW

Paul McCartney no Allianz Parque

Felicidades. E até a próxima.

Tarcísio Buenas

 

 

 

Melhores do ano (Primeira parte)

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Alguns dos melhores livros que li em 2017 (independente do ano de lançamento).

  1. João Gilberto Noll – Hotel Atlântico
  2.  Vários autores – O livro das vidas (Obituários do New York Times)
  3. James Rhodes – Instrumental
  4.  Lucrécia Zappi – Acre
  5. Antônio Bivar – Aos quatro ventos
  6. Clara Baccarin – Vibração e descompasso
  7. Charles Bukowski – Sobre gatos
  8.  Raymond Carver – Esta vida (poemas escolhidos)
  9. Aline Bei – O peso do pássaro morto
  10. James M. Cain – O destino bate à porta
  11. Thomas Bernhard – Meus prêmios
  12. Lucas Mayor – Little Italy
  13. Carcarah – Bostumana 2
  14. Marc Fischer – Ho ba la lá (à procura de João Gilberto)
  15. Nate DiMeo – O palácio da memória

Amanhã, a segunda parte (Discos)

Tarcísio Buenas

Melhores capas

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The Jimi Hendrix Experience – Electric ladyland (1968)

Este foi um dos discos que me aproximaram de Fabrício, meu amigo, irmão e padrinho do meu filho (Lico). Deixando o valor sentimental de lado, trata-se de uma grande capa de um grande disco. Outros tempos. Anos depois, quando relançado em Cd na versão remasterizada — na segunda metade dos anos 90 — a família de Hendrix vetou a capa original substituindo por uma do preto de perfil. Electric ladyland, a obra-prima do cara que revolucionou o som da guitarra. Incendiou palcos em todos os cantos do planeta. Filas com as mais belas mulheres foram formadas na entrada do camarim pós-show. Casos múltiplos de amor brotaram em sua curta existência — Nico e Marianne Faithfull foram alguns desses amores. Jimi e sua banda, a atração mais aguardada do festival Woodstock — até então, o maior festival de rock do planeta. Jimi e sua turma nos presenteando com sua grande obra. Incendiando tudo. Tocando o terror. Enfim, coisa de preto

Tarcísio Buenas