Elisa se entusiasmou demais (Capítulo quatro).

10491282_4379539384306_8791346127773245895_n

(Art: Marcos Rodrigues)

As coisas estão indo bem na biblioteca. Eu gosto de trabalhar entre os livros. De folhear um por um. De ler vagarosamente vários durante a semana. O início foi tenso. Pensei em cair fora nos primeiros dias. Vi os frustrados tentando me mostrar uma falsa felicidade. Um falso prazer. Não vi orgulho nos olhos do Nonô, meu colega, quando ele me disse com o peito estufado “Eu tenho treze anos de casa”. Ele não me convenceu desta vez, nem de quando caminhando pra casa depois do expediente, que ama sua mulher e que eles formam um belo par. Um par perfeito. Não vi verdade em seu olhar; nem no seu tom de voz. Que fazem planos para passear em Miami nos próximos anos com uma insegura vontade de permanecer por lá. Este papo com o Nonô a caminho de casa me lembrou de uma discussão que presenciei entre dois vizinhos. Um deles batia orgulhoso no peito por morar ali há dez anos. Tentando intimidar o outro que não tava nem aí. O outro tava de passagem. Não queria tirar o sossego de ninguém. Só queria ficar na dele. Uma vez no bar, sozinho, antes de entrar em casa, fiquei pensando na vida do Nonô e na vida do meu vizinho “orgulhoso”. É tão pouco tudo isso. Toda essa discussão. Me parece uma forma fracassada de tentar marcar território. De poder dizer “Fica na tua que eu estou aqui há muito mais tempo”. Tão mesquinho. Tão fútil. Bebi duas cervejas e uma dose de conhaque; só então voltei pra casa. Sozinho estava, sozinho continuei. Elisa havia saído sem deixar recado.

Tarcísio Buenas.

[Do conto, inédito, Elisa se entusiasmou demais].

Lançamento: abril de 2017.

Bebendo no balcão…

14724498_10202374440560016_6824393673517261059_n

(Cover by Malika Favre)

Bebendo no balcão, sozinho, curtindo Dylan, o cara que mudou a história da música popular americana – a mais influente do mundo -, o cara que mudou os rumos do rock – até então era só “shebopalulas” e “iêiêiês” -, o cara que escreveu letras quilométricas narrando histórias com seus personagens enigmáticos, curiosos, sofridos (isto é ficção, isto é literatura), sim, nisso colou uma menina pedindo uma cerva. Daí um cara encostou nela: “eu quero te amar”. Ela, indiferente, pegou a cerva e voltou pra beber com seus amigos na mesa.

Tarcísio Buenas.

Noites no Cemitério de Automóveis SP

unnamed-2

Noite de quinta-feira no Cemitério de Automóveis SP.

Quem conhece o espaço sabe que a entrada da livraria é pequena — menor do que a largura da porta da sua casa. Da minha é.

Tinha dois caras se beijando nesta minúscula entrada. Pedi pra que eles deixassem o espaço vago pros clientes transitarem. Um deles me chamou de homofóbico.

Quem me conhece sabe que não sou. Tranquilo, eu não disse nada e fui pro banheiro. Quando voltei, eles tinham saído.

Noite de sexta-feira no mesmo local.

Tinha um homem e uma mulher se beijando. Expliquei pra eles o mesmo que expliquei pros caras na noite anterior. O cara me pediu desculpas – não precisava pedir – e foi pra escada com a gata dele.

O problema não tá comigo…

Tarcísio Buenas.

Canalha?

31f883a5799325414165b9df90f58ac6

O teatro não abriu hoje, então aproveitei pra dar um giro por aí. Encontrei uma turma. Parei, bebi com eles, bati um papo, e um deles me chamou de canalha. Pensei que fosse zoeira. Não foi. Ele falou sério mas de boa. Isto fez minha volta pra casa ser um pouco perturbada e pensativa. Uma vez aqui, ainda bem que eu tenho o meu universo próprio. O meu “mundinho” como já foi chamado por algumas “ex”. O que elas dizem no final são coisas terríveis de se ouvir. São perversas. Elas seguram a onda durante a relação e deixam pra vomitar bem no fim. Botam tudo pra fora no apito final. Desabafam. Fica a impressão de que estão fazendo tudo isso porque sabem que acabou. Mesmo. Não tem volta. “Agora posso falar.” E falam mesmo. Berram. Expurgam. “EU NÃO AGUENTAVA MAIS AQUELA LUZ ACESA DE MADRUGADA COM ESTA MERDA DE SOM BEM ALTO SAINDO DESTA MERDA DE FONE DE OUVIDOS! EU NÃO AGUENTAVA MAIS, PORRA!”. Engraçado é que no começo elas sorriem. Parecem entrar na onda. Só que não dura muito. E no final vem a voadora. Você pode ter certeza que na hora H você vai ouvir. Se prepare.

Chegando em casa ainda um pouco perturbado, liguei o som. Wilco pra lembrar a noite de ontem com meus amigos Fernão Vale e Paula Miura. Foi uma noite agradável. O show do Wilco foi legal. O do Libertines foi empolgante. Me surpreendeu. Não esperava tanto. Bela noite. Bebi o suficiente pra voltar pro teatro de bem com a vida. Chegando lá, bebi mais. Voltei pra casa no cu da madruga caminhando sozinho e bebi ainda mais quando cheguei. Duas ‘longs’ me aguardavam no frigobar. Foi uma noite agradável – a de ontem. Já a de hoje, um pouco ainda perturbadora. Fui chamado de canalha. E o cara falou sério.

Tarcísio Buenas

Um brinde ao Cemitério

12509187_10201085309572724_3493129763342800179_n

(Texto escrito e postado em janeiro deste ano no Facebook. Paranaguá – PR).

Acordei quatro horas da tarde. Escovei os dentes, coloquei um disco do Roberto pra tocar, tomei café e voltei pra cama. No conforto da cama da minha mãe, que é enorme, entrei no Facebook. O primeiro texto que li foi do meu amigo Bortolotto. Minha “espinha” congelou. Ele fala de fases. De ciclos. E o entendo muito bem. E de um possível fechamento do teatro. A gente sabe que isso vai acontecer. Qualquer hora dessas as portas do lugar mais legal de SP vão fechar de vez (…). Respirei fundo, fui até a geladeira e abri a primeira lata do dia. A tristeza só aumentando. Minha mãe tava lendo um jornal local e comentando sobre a dengue. Fui até a varanda. Na volta, ela disse: “Ciso, fecha a porta e a janela”. “Pra quê?”. “É que eu li no jornal que o mosquito da dengue entra nessas horas nas casas. É quando tá escurecendo, meu filho”. Eu ri. E muito.

Como escreveu meu amigo Lucas Mayor em um de seus textos: “É provisório”. Sim, é tudo provisório. O teatro, os comentários da minha mãe, minha existência. As canções ficam. Inclusive as do Roberto.

Tarcísio Buenas.