E POR ISSO NÃO DURMO DIREITO

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(Texto escrito e postado ontem no facebook)

E por isso não durmo direito é o título do primeiro livro do nosso amigo Linguinha. O lançamento será hoje à noite, 19H, no Cemitério de Automóveis (Rua Frei Caneca, 384). Eu estava folheando o livro com a TV ligada quando soube da tragédia do avião que matou o time do Chapecoense, além de jornalistas, funcionários da empresa aérea, etc. Eu estava relendo naquele exato momento o texto que eu escrevi pra contracapa. O prefácio é de outro amigo, o Mário Bortolotto, e a contracapa é minha. Então eu fiquei analisando o final do meu texto e pensando no lançamento de hoje à noite. Pensando na tragédia e da vida descompromissada que a gente leva (Linguinha e eu). O texto termina da seguinte forma: “De sentar pra beber com amigos ou com uma gata, Linguinha, com seu carisma, trata muito bem esta fragilidade que chamam de vida”. É frágil a vida. E quando recebo uma porrada como esta, fica mais evidente e sem arrependimento algum a vida que levo; que já foi criticada por muitos ao longo dos anos. Mas é que eu não tô nem aí. Ontem o nosso amigo Cristiano Burlan filmou lá no teatro o curta “Crônica da garota ruiva” com roteiro meu e participação dos amigos Carca Rah e Débora Estter, além do Linguinha, que fez o balconista do bar. Quando eu escrevi esta crônica em fevereiro do ano passado, jamais imaginei que fosse virar um filme. Um curta. Tanto é que tem uma passagem em que eu escrevi assim: “Isto não é cena de um filme”. Ironia do destino, vai tá logo logo nas telas dos cinemas. Acredito que a gente faça a estreia no Cemitério. Acredito. As filmagens foram feitas em pouco mais de três horas. Foi bem legal beber umas cervas vendo a turma gravando um roteiro meu. Roteiro de uma crônica que jamais imaginei fosse virar um filme. Os atores se divertiram fazendo. O Linguinha ficou massa fazendo o balconista mal-humorado. Em seguida o Burlan filmou O projecionista, o mais novo longa dele, com a gente. Eu curti fazer. Curti a sensação, depois de muito tempo, de trabalhar como ator (que abandonei há mais de quinze anos). A verdade é que eu não interpretei. Foi um bate-papo: um cara conversando com um livreiro. Bem legal. Aí quando eu terminei de folhear o livro do Linguinha, bateu uma sensação estranha com a notícia da tragédia interrompendo sonhos de um povo. De uma cidade. De um time de futebol. Fiquei mal. E ainda estou. E só sentei pra escrever pra falar do lançamento do Linguinha e do prazer de fazer cinema com os amigos. Com a turma competente do Burlan. Turma das boas. Quero encerrar dizendo que adorei ter trabalhado com vocês. Obrigado. E sigamos.

Tarcísio Buenas.

P.S.: A foto da capa do disco do Keith ao fundo não foi por acaso.

Elisa se entusiasmou demais (Capítulo nove)

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(Art: Marcos Rodrigues)

Eu estava guardando uns livros na estante quando ela se aproximou: “Você pode me indicar uma escritora brasileira, nova, que seja foda?”. “Não existe. Que eu saiba, não existe essa escritora”. Ela insistiu: “Será?”. “Que eu saiba…” (me cortando), “Tem tanta menina escrevendo e publicando e você não conhece nenhuma?”. “Olha, existem muitas meninas mandando bem na atualidade; mas é que você perguntou por uma foda”.

O condicionador de ar não estava funcionando bem, o clima estava abafado e as goteiras no balde ao lado da estante incomodavam o estudante na mesa da frente.

Ela parecia irritada com minhas respostas e com o clima da sala de leituras. Roeu as unhas, mexeu nos cabelos, e continuou: “E escritores?”. “O que é que tem os escritores?”. “Tem algum foda no momento entre os novos?”. “Também não conheço”. “Nossa, cara, você também não conhece nada!”. “Foda, no momento, não. Nenhum”. “Como você é cético e mal-humorado…”. Perdi a paciência: “Agora você vai parar de encher o meu saco e dar o fora, ou não?”. “Aff, que grosso…”. E saiu. Nunca tinha visto essa menina na biblioteca. Fui tomar um café quando vi, de longe, ela reclamando com a minha supervisora. Obviamente, sobre o meu atendimento.”

Do livro “Elisa se entusiasmou demais”. Lançamento: 2017.

Tarcísio Buenas.

A arte de Peter Saville

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Nascido em 1955, em Manchester, Inglaterra, Peter Saville sempre foi conhecido como um artista polêmico devido aos seus projetos ousados. Fundou a Factory Records ao lado do jornalista e apresentador de televisão Tony Wilson no final dos anos setenta, após se conhecerem num show da Patti Smith em 1978.
A Factory e a Peter Saville Associates foram responsáveis pelas belas capas que fizeram para bandas como Pulp, New Order, Joy Division e Suede, entre outros.
A capa do álbum Power, Corruption and lies foi eleita, através de um concurso público, em 1995, como um dos ícones britânicos patrocinado pelo Museu do Design de Londres e pela BBC.
Seu projeto gráfico para Closer do Joy Division causou polêmica na época do lançamento por apresentar uma imagem do corpo de Jesus Cristo. A revista NME conseguiu provar que Peter criara o designer da capa antes da morte de Ian Curtis, por ter colocado em suas paredes a arte-final antes do lançamento do álbum.
Tarcísio Buenas.

Faz três anos…

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Faz uns três anos que eu não sei o que é acordar cedo. Acho que a última vez foi em Paranaguá, cidade localizada no interior do Paraná, onde minha mãe vive há dezesseis anos. E só levantei da cama porque ela ficou enchendo meu saco pra eu fazer exames de fezes e urina, coisa que raramente faço. É que nunca dá nada. Duvido que alguma lombriga consiga viver em meu organismo com a quantidade de álcool que eu bebo diariamente. Duvido. Ontem, não bebi. Precisava fazer uns trampos aqui em casa e bebendo não dá. E tava louco também pra terminar o livro “A viagem de James Amaro” do Luiz Biajoni, e terminei. Adorei esta road novel, curta e certeira. “A viagem de James Amaro” é desses livros que bate saudade quando você acaba. Poderia ser maior (se bem que dizem que menos é mais). Eu já ouvi muito isso por parte de leitores quando leram o meu livro “18 de maio, quanto tens por dizer…” que lancei no ano passado. E por falar nisso, haverá em breve uma nova tiragem, limitada, e dessa vez quem comprou, comprou. É que eu só penso agora no meu novo livro “Elisa se entusiasmou demais” que vai sair no próximo ano pela Bar Editora do meu brother Kleber Felix. Isto é, se eu conseguir terminar de escrever esta história que não tenho a máxima ideia de onde vai parar. Mas o que eu queria dizer no início deste texto é que como foi bom acordar cedo. Hoje, foi. Até Coco, o gato do vizinho, estranhou. Ele entrou assim que eu abri a porta mas não ficou muito tempo. Deu um giro e caiu fora. Eu já percebi que ele só fica mais tempo comigo quando estou melancólico. Incrível. Ele só fica mais tempo comigo quando estou pra baixo. Ele sobe em meu colo. Ás vezes, quando estou deitado, na minha barriga. E fica na dele me observando. Esses bichanos são seres fantásticos.

Agora me lembrei que antes de dormir, uma louca, minha amiga, claro, caso não fosse, ela não faria o que fez, me mandou uma mensagem ali por volta das quatro da madruga me convidando pra dançar. Eu ri. Louquinha, eu não danço. E ainda mais nesta hora da madruga, sóbrio e doido pra ficar sozinho no meu canto.

Fico por aqui ao som do Silver Jews, banda que parece que só eu gosto, com a bela “How to rent a room”. Esta começa assim: “No I don’t really want to die
I only want to die in your eyes”.

Tarcísio Buenas.

She’s lost control

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Pra um amigo

Ela sabe que ele é o pior tipo. Bêbado inveterado, só olha pro umbigo. Ele não é de dar nada a ninguém. Ele é da troca. E nunca perde. Nada. Basta a vida que ele leva. Descompromissada. E ela sabe. Ela sabe que ele é o pior tipo. Vadio. Canalha. Ele tem o maior prazer em proferir as célebres frases “Elas têm o costume de falar mal de mim. Até do outro lado do oceano tem uma mulher falando mal de mim”. E ela sabe. Ele, a escória. Ela parece não saber. Mas sabe. She’s lost control. É o que parece. E será em vão. Um verme não muda. E sem essa de humilhação. De nada vai adiantar. Sua atitude será em vão. Ela parece não saber. Mas sabe. She’s lost control.

Tarcísio Buenas.

Caras que fazem minha cabeça: Edward Bunker

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“Perseverei porque tinha consciência de que a escrita era a minha única chance de criar algo, de escalar as paredes do poço escuro, alcançar o sonho e repousar ao sol. E, tendo lido até aqui, você deve ter percebido que a perseverança é um traço fundamental da minha natureza. Levanto-me de cada golpe tantas vezes quantas meu corpo obedecer à minha vontade. Ganhei muitas lutas porque não desisti, e também levei algumas porradas memoráveis por não saber quando desistir.”

Do livro Educação de um bandido (Autobiografia).