Elisa se entusiasmou demais (capítulo 3)

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Acordei com o celular tocando. Era de uma operadora. A atendente tentando me vender algo que não me interessa. Fico com raiva quando interrompem meu sagrado sono. E logo de manhã. Sempre meu humor piora nessas horas. Vou até a janela. Tem uns meninos jogando bola na rua. Meus vizinhos do lado estão preparando uma festa. Acho que é um churrasco. O que piora as coisas: churrasco rima com cerveja e caipirinha e costuma acabar em samba. Meu dia começando assim… Elisa rola na cama. Parece me procurar com seus braços abertos. Em vão. Ela percebe que estou na janela e me chama pra voltar pra cama. Eu atendo o seu pedido. Neste exato momento um carro de som para em frente à porta do meu vizinho do churrasco. Dos alto-falantes ecoa um estrondoso “Parabéns pra você!”. A raiva só aumenta. Vou em direção à porta. Elisa me puxa pelo braço. Ela me convence a ficar. Me beija. Me abraça. Faz tudo exatamente o que ela não fez na noite passada. Minha manhã se transforma. E tudo fica aprazível.

Tarcísio Buenas

Do meu conto, inédito, Elisa se entusiasmou demais.
Lançamento: não sei.

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Eu sou do tempo…

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Eu sou do tempo que quando ligava a TV pra tomar o café da manhã tava passando Bozo (o palhaço estranhamente muito louco) em um canal, e no outro, o programa da Xuxa. Acho que era Xou da Xuxa. E tudo era bem-vindo — embora eu achasse Bozo estranhamente muito louco. Dava medo, às vezes. Mas ele tava lá e não fazia mal a ninguém. Hoje, nada do que tem acontecido no que diz respeito a censura no campo das artes me choca. A gente (do Cemitério de Automóveis) vêm cantando a pedra há algum tempo, mas pouca gente presta atenção. Por que vocês prestariam? Não somos os donos da verdade. São apenas opiniões contrárias aos da maioria. Nada do que tá rolando choca a turma aqui. Ninguém fica indignado. Há algum tempo venho dizendo que “de agora em diante é só descida; só ladeira abaixo”. Mas você também não precisa prestar atenção no que estou dizendo. Não mesmo. Cada um, cada um. E tudo certo. Só quero encerrar dizendo que eu sou do tempo dos verdadeiros “baques”. Dos verdadeiros choques. O que tem rolado é fichinha. Por isso a alienação. A preguiça de opinar. Dá trabalho opinar. A se defender dos comentários (um pé no saco!) aqui no facebook. Mas é isso. E a vida segue.

T. B.

Trópico de Sagitário?

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Com o movimento fraco, dois livros pra terminar de ler, e dois roteiros pra desenvolver, eu deveria estar em casa. Mas, se estivesse, ia perder a da noite. A da madrugada. Um casal salvou o trampo de hoje. Ele, entusiasmado com a livraria — é a primeira vez deles aqui —, me perguntou se tenho algum livro bom pra vender. Dei umas dicas e ele separou o Código de um cavaleiro do Ethan Hawke. Ela queria O Lobisomem. “Este eu não tenho”. “Ah, que pena”. “Escolha um, amor”, ele disse. E ela, deslumbrada ao ver os livros Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio do Henry Miller: “É isso, amor! É isso! É isso! Isso é que é livro!”. E veio pro meu lado: “Moço, tem Trópico de Sagitário?”. Engoli a saliva. Respirei. Tentei disfarçar um sorriso. Ela, pra ele: “Isso aqui, amor, é de uma série sobre signos…. Ai, achei! Achei! Era tudo que eu queria!”. Eu disse, constrangido: “É que esses livros são autobiográficos do Henry. São os dias dele em Paris”. E ela: “Mas tem o de Sagitário, de Touro, Áries, Leão… “. “Veja bem, moça… É que esses livros não são sobre signos. É o Henry narrando os dias dele na França”. Pro amor dela: “Ah, mor, eu confundi. Depois você me dá O Lobisomem”. Ele pagou o Código de um cavaleiro e saiu com uma certeza: “Eu vou gostar desse livro. Parece com D. Quixote”. “É por aí”, eu disse.

Noite…

T.B.

 

Dá vontade de jogar de cima da ponte (qualquer ponte)

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A menina não tá passando bem. Ela tá no bar. É madrugada, e é normal que alguém passe mal no bar. É como quebrar um copo. No bar. É normal. E é normal, também, que apareçam os que se acham médicos. É o que mais tem no bar nessas horas. E é insuportável. E chegam, na maioria das vezes, pra atrapalhar. Pra estressar. Na última madrugada não foi diferente. A menina sentou no tapete da livraria. Tava consciente. E queria ficar sozinha. Não demorou muito, chegou a primeira médica. Dei um toque dizendo que deixasse comigo. Em seguida, um médico sentou no tapete e foi logo pegando na mão dela e puxando conversa: “O que você tá sentindo? Comeu? Quer um engov?”. Dei um chega pra lá. Ele levantou. Em pé, ficou me olhando com cara feia. De raiva. Mesmo. Não dei a mínima pra eles; que foram embora. E a menina me agradeceu assim que se sentiu melhor: “Buenas, obrigada por espantar aquele mala.”

T.B.

A Buenas Bookstore, a única livraria que funciona na madrugada paulistana, fica na rua Frei Caneca, 384.